"...aprendi que aprender é conscientizar-se e que o desenvolvimento de nossa consciência social é o acréscimo de esperanças angustiantes, que o prazer do aprendizado se mescla com a dureza de uma realidade social triste e desesperada que se incorpora e constroi a consciência do mundo e da vida..." ( Ex-Senador Lauro Campos)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Analise de conjuntura

Uma Belissíma Analise de Conjuntura
Quando eu era criança, minha avó me contou a fabula dos cegos e o elefante.
Três cegos estavam diante do elefante
Um deles apalpou a cauda do animal e disse:
_ é uma corda.
Outro acariciou uma pata do elefante e opinou:
_ é uma coluna.
O terceiro cego apoiou a Mao no corpo do elefante e advinhou:
_ é uma parede.
Assim estamos: cegos de nós, cegos do mundo.
Desde que nascemos, somos treinados para não ver mais que pedacinhos.
A cultura dominante, cultura de desvinculo, quebra a história passada como quebra a realidade; e proíbe que o quebra cabeça seja armado.
Eduardo Galeano e analise do Professor Dr. Carlos Alberto Ferreira Lima.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Auto da Lusitania - Gil Vicente

Auto da Lusitânia
Quem nessa tragetória terreste nunca se deparou com alguem assim? quem nunca se viu num desses papéis?
então leia e divirta-se com essa belíssima e humorada peça teatral de Gil Vicente.
("Todo o Mundo" era um rico mercador, e "Ninguém", um homem pobre. Belzebu e Dinato tecem comentários espirituosos, fazem trocadilhos, procurando evidenciar temas ligados à verdade, à cobiça, à vaidade, à virtude e à honra dos homens.)

Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém e diz:
Ninguém: Que andas tu aí buscando?

Todo o Mundo:
Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando
por quão bom é porfiar.

Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?

Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.

Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.

Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.

Dinato: Que escreverei, companheiro?

Belzebu: Que Ninguém busca consciência.
e Todo o Mundo dinheiro.

Ninguém: E agora que buscas lá?

Todo o Mundo: Busco honra muito grande.

Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.

Belzebu: Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Ninguém busca virtude.

Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?

Todo o Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.

Ninguém: E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.

Belzebu: Escreve mais.

Dinato: Que tens sabido?

Belzebu: Que quer em extremo grado
Todo o Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.

Ninguém: Buscas mais, amigo meu?

Todo o Mundo: Busco a vida a quem ma dê.

Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.

Belzebu: Escreve lá outra sorte.

Dinato: Que sorte?

Belzebu: Muito garrida:
Todo o Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.

Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
sem mo Ninguém estorvar.

Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.

Belzebu: Escreve com muito aviso.

Dinato: Que escreverei?

Belzebu: Escreve
que Todo o Mundo quer paraíso
e Ninguém paga o que deve.

Todo o Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.

Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar.

Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.

Dinato: Quê?

Belzebu: Que Todo o Mundo é mentiroso,
E Ninguém diz a verdade.

Ninguém: Que mais buscas?

Todo o Mundo: Lisonjear.

Ninguém: Eu sou todo desengano.

Belzebu: Escreve, ande lá, mano.

Dinato: Que me mandas assentar?

Belzebu: Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo o Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Trabalho Infantil: Vamos por fim!!!


O número de crianças e adolescentes que trabalham no país vem caindo nos últimos anos. Em 2009, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), havia 4,2 milhões de trabalhadores brasileiros com idade entre cinco e 17 anos, o que significa nível de ocupação de 9,8% do total das pessoas na faixa etária. Em 2008, esse número era de 4,4 milhões (10,2% do total). Segundo dados históricos da Pnad, desde 1995, o percentual de crianças ocupadas entre cinco a nove anos caiu de 3,2% para 0,8% do total. Já entre os trabalhadores de 10 a 14 anos, o percentual despencou de 18,7% para 6,9%. Dos adolescentes de 15 a 17 anos, a média caiu de 44% para 27,4%.
Mesmo com a redução em ritmo acelerado, o país ainda contabilizava, no último ano, 123 mil crianças de cinco a nove anos trabalhando –sendo 69% delas do sexo masculino. Entre 10 e 13 anos, esse número é de 785 mil, enquanto 3,3 milhões de trabalhadores tinham entre 14 e 17 anos.

Regiões
A Pnad mostra que há uma diferença considerável entre as regiões no que diz respeito ao trabalho infantil. O Nordeste concentrava 437 mil dos 908 mil trabalhadores entre cinco e 13 anos (48% do total). Já o Sudeste, com uma população 60% maior, tinha 182 mil. Apesar da liderança, o Nordeste foi a região que apresentou maior redução entre 2008 e 2009 nessa faixa etária, com a erradicação de 98 mil postos de trabalho infantil.
Os números da Pnad revelam ainda que os trabalhadores menores de 18 anos mantinham uma jornada de trabalho média de 26,3 horas semanais, com taxa de escolarização de 82,4%. A média de rendimento das crianças e adolescentes trabalhadores era de R$ 278, sendo que 30% deles não recebiam nenhuma contrapartida pelo trabalho oferecido. “A população ocupada de cinco a 13 anos de idade estava mais concentrada em pequenos empreendimentos familiares, sobretudo em atividade agrícola (57,5%). Aproximadamente 70,8% estava alocada em trabalho sem contrapartida de remuneração (não remunerados e trabalhadores para o próprio consumo ou na construção para o próprio uso)”, informa o texto base da pesquisa.

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

A reportagem acima mostra os índices “positivo” da redução do trabalho infantil, principalmente em algumas regiões, e não podemos deixar de lembrar que isso não se dá sem créditos, foram algumas medidas governamentais que fizeram com que esse quadro viesse a mudar, dessa forma, enquanto sociedade civil que somos podemos continuar cobrando essas políticas públicas para que esse quadro continue a diminuir e nossas crianças possam realmente comer,crescer, dormir e brincar...

CAMPANHA DO CFESS: Vamos Abraçar essa causa!!!

O Dia Mundial contra o Trabalho Infantil ficou registrado em 12 de junho.  A data, ocorrida neste domingo, foi definida em 2001 com o objetivo de marcar, em nível internacional, um fenômeno que, apesar de proibido em lei, se mantém como forma de violação de direitos de crianças e adolescentes.
O Relatório divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em junho, com o título "Crianças em trabalhos perigosos: o que sabemos, o que precisamos fazer", informa que, das 215 milhões de crianças de todo o mundo que trabalham, 115 milhões exercem atividades consideradas perigosas (aquelas que são prejudiciais à saúde e à integridade física e psicológica). Por isso, o tema da campanha deste ano é a eliminação do trabalho infantil perigoso, parceria da OIT com o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e a Frente Parlamentar Mista dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente.

O QUE SABEMOS E PRECISAMOS SABER PARA QUE NOSSAS CRIANÇAS CANTEM...

É Bom Ser Criança
Composição : Toquinho
É bom ser criança,
Ter de todos atenção.                                                            
Da mamãe carinho,
Do papai a proteção.
É tão bom se divertir
E não ter que trabalhar.
Só comer, crescer, dormir, brincar.
É bom ser criança,
Isso às vezes nos convém.
Nós temos direitos
Que gente grande não tem.
Só brincar, brincar, brincar,
Sem pensar no boletim.
Bem que isso podia nunca mais ter fim.
É bom ser criança
E não ter que se preocupar
Com a conta no banco
Nem com filhos pra criar.
É tão bom não ter que ter
Prestações pra se pagar.
Só comer, crescer, dormir, brincar.
É bom ser criança,
Ter amigos de montão.
Fazer cross saltando,
Tirando as rodas do chão.
Soltar pipas lá no céu,
Deslizar sobre patins.
Bem que isso podia nunca mais ter fim.


    

Trabalho Infantil: Vamos por fim!!!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

LUTAR POR DIREITOS, ROMPER COM A DESIGUALDADE

LUTAR POR DIREITOS, ROMPER COM A DESIGUALDADE



O Serviço Social brasileiro realiza a Cam­panha Lutar por Direitos, Romper com a Desigualdade como forma de protes­to e indignação diante da barbárie capitalista que reitera a desigualdade social, e defende o fortalecimento dos movimentos sociais or­ganizados em defesa dos direitos da clas­se trabalhadora e de uma sociedade livre e emancipada. Esses são nossos compromis­sos éticos, teóricos, políticos e profissionais.

As desigualdades econômicas e sociais entre países “ricos” e “pobres” se agudizam nesse momento de crise. A especulação financeira vem transformando a sociedade em um grande cassino, sendo esta a característica mais mar­cante do mercado de capitais, e gerando gran­des transferências de capital ao sistema ban­cário, o que detonou a crise atual, comparável apenas à Grande Crise de 1929, e que ainda está longe de ser superada. Tais condições de reprodução material e das relações sociais no capitalismo contemporâneo têm profundos im­pactos na crescente e desigual repartição da ri­queza mundialmente produzida, já que os 20% mais ricos do mundo ficam com mais de 80% do PIB mundial, o que faz com que 1 bilhão e meio de seres huma­nos vivam em condição de mera sobrevivência.

Brasil: um país que não redistribui renda e riqueza

Texto retirado da Campanha Lutar por Direitos, Romper com a Desigualdade – CFESS Brasilia, Outubro de 2009. Gestão 2008/2011


Referendo tão grande desigualdade com esse belíssimo poema de Eduardo Galeano.
“As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.                                                         
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.” (Eduardo Galeano).
O enfrentamento e a ruptura com essa desigualdade estrutu­ral, reiterada e banalizada, só é possível com a superação da condição que produz essa desi­gualdade: a apropriação priva­da da riqueza socialmente pro­duzida. Por isso defendemos a univer­salização dos direitos como mediação na luta pela sociali­zação da riqueza e superação da desigualdade.
Texto Retirado da Campanha referida acima (CEFESS).

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Descontentamento.

DESCONTENTAMENTO

Quando

Para Edison Simon e Eduardo Galeano

E então como as nuvens passam
E os homens morrem
Assim tão simples entes e mentes
Nada mais significam


São engodos                         
Nódoas
Mágoas
Coisas esquecíveis.
Simples entes e mentes
Ignoráveis.

Acordamos um dia como noturnos.
Entre fuzís e coturnos nos definimos libertários.
Perdidos entre o bucólico e o alcóolico nos dizemos apaixonados.
Mas nada é tão burguês quanto ser socialista.

É o mesmo que dizer temos queijo, mas não para ratos.
Temos vinho, mas vista o terno. Saiba termos. Regras.
Silêncios. Discrições descritas nos index
do bem comum.
Nada tão hipócrita.

A mortalha me serve.                                                   
É rede feita de linho.                      
Simples.

O sol é lindo.
O sal não arde.
De amor fui feito,
por amor lutei.
E as nuvens passam...

Um dia há de contrários, mas não eternidades.
É preciso o impreciso de verdades.
Então morremos. E sabemos
com tranquilidade
que não há mais dor.
Nem precisamos de esperanças.
Em breves, como em vidas, não havemos mais
lembranças ou
esquecimentos.

Nada mais além
do firmamento.
Jodhi Segal

Gostaria de ter mais palavras, minhas, próprias, para expressar mais um descontentamento do real, não mudo de partido, por quê?  porque talvez minha esperança seja ainda aquela “a ultima que morre!” Acredito no partido mesmo depois de tantas mudanças e a quem me pergunte por quê? Talvez pela concepção do que seja Partido, diferente do que é Governo. (Definição para outra postagem).
Que a força do medo que tenho
 Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.” (O. Montenegro)



Sistema de produção capitalista, cuja influência torna toda uma estrutura social contraditoria, uma sociedade alheia, um gorverno corrompido, uma ética sem credito, uma moral sem valor. Queria encontrar lugar para a minha filosofia, sei que não encontrarei e sei também que ela ficará no mundo das palavras ( utopia )...

"A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."
(Eduardo Galeano)

...como deve estar a filosofia de todos que acreditam que um Outro Mundo é Possivel. Escrevo como com a minha razão um Descontentamento, mas não uma desesperança. E acreditem ainda assim “prefiro o otimismo da vontade ao pessimismo da razão.” (Gramsci).

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ensaios sobre Alienação

Ensaios sobre Alienação
A palavra alienação vem do latim alienus, que veio a dar “alheio”, significando "o que pertence a um outro". No domínio do direito, a alienação designa o ato de transferência da posse ou do direito de propriedade de alguma coisa para outrem, seja por doação seja por venda. Na psiquiatria, a alienação era, até à algum tempo – há hoje tendência para abandonar o termo - sinônimo de doença mental grave, envolvendo a perda da noção quer da identidade pessoal quer da realidade. Segundo dicionário Ediouro, alienação – ação ou efeito de alienar-(se); cessão de bens ou direitos; enlevo, êxtase; perda da razão; desinteresse pelas questões políticas e sociais. No domínio estritamente filosófico, o tema da alienação é trazido para primeiro plano por Hegel e retomado, posteriormente, por Feuerbach, por Marx – cuja formulação é, sem dúvida, a mais conhecida – Para Marx, que analisou esse conceito básico, a alienação não é puramente teórica, manifesta-se na vida real, a partir da divisão do trabalho, quando o produto do trabalho deixa de pertencer a quem o produziu. Dessa forma temos alienação do trabalho conforme Marx, ao se confinar o operário à fabrica, retirando dele a posse do produto, é ele próprio que perde o centro de si mesmo, não escolhe o salário, o horário e nem tão pouco o ritmo do trabalho, somente o contrato de trabalho é livre, o resto inerente ao processo ainda é escravo mesmo.
 
Hoje em dia há a tendência para utilizar o termo nos mais variados domínios, dando-lhe o significado extremamente lato de todo o processo mediante o qual o homem deixa de ser autônomo, de ser dono de si mesmo, para se tornar propriedade (escravo) de um outro – algo ou alguém - que por ele decide acerca da sua vida. É precisamente nesse sentido que se fala na “alienação” provocada pela ideologia, pela droga, pelo materialismo, etc.
Para melhor explanar essa terminologia primeiramente vamos denominar e clarificar os quatro aspectos principais trazidos por Marx:

1.      O homem está alienado da natureza;
2.      Está alienado de si mesmo (de sua própria atividade);
3.       De seu “ser genérico” (de seu ser como membro da espécie humana)
4.      O homem está alienado do homem (dos outros homens)

O primeiro desses quatro aspectos “trabalho alienado” refere-se à relação do trabalhador com o produto do seu trabalho, sua relação com o exterior, os objetos da natureza. O segundo aspecto é a relação do trabalhador com o ato de produzir dentro do processo de trabalho, um processo de trabalho alheio, talvez ate a vontade do trabalhador, que não oferece satisfação em si e por si mesma. Marx chama o primeiro aspecto de “alienação da coisa” e o segundo, “auto-alienação”. O terceiro, porem, transforma o “o ser genérico” do homem, tanto a sua natureza como as suas faculdades espirituais especificas, num ser alheio a ele. Ele aliena o próprio corpo do homem em relação a si mesmo, como faz com a natureza exterior a sua existência espiritual, seu ser humano.

O quarto aspecto considera a relação dos homens com os outros homens. Como ressalta Marx sobre esta ultima:
 “uma conseqüência imediata do fato de que o homem está alienado do produto de seu trabalho, da atividade de toda a sua vida, de sua espécie, é alienação do homem em relação ao homem. Quando um homem se vê em face de si mesmo, ele se defronta com outro homem. O que se aplica à relação do homem com seu trabalho, com o produto de seu trabalho e consigo mesmo, também é válido para a relação do homem com outro homem, e com o trabalho de outro homem e o objeto de seu trabalho. Na realidade, a proposição de que a natureza da espécie do homem está alienada dele significa que um homem está alienado do outro homem, significa que todos eles estão alienados da essência humana.”

No trabalho e na produção a alienação é a mesma, a desfiguração do trabalhador em relação ao produto do seu trabalho dessa forma a máxima “A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas” Marx. No mundo vigente do capital e do trabalho o que não seria de certa forma alienação? Somos alienados no consumo, quando nos deixamos criar falsas necessidades, no pensamento quando não conseguimos refletir sobre as noticias da mídia, aceitando apenas as versões que nos são postas, no lazer, principalmente quando associamos este ao consumo. Enfim finalizo e que nos fique a reflexão.

“Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.”
(Fernando Pessoa)             

Referências:
  • Aranha,Maria Lucia de Arruda; Maria Helena Pires Martins - Filosofando:introdução a filosofia. 3.ed resvista - Sao Paulo: Moderna,2003Meszaros,István - Marx: A Teoria da Alienação - editores Zahar, 1981
  • Codo,Wanderley - O que é Alienação - Nova Cultura/Brasiliense,1986
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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Trabalho: Valor e des (valor)

Trabalho: Valor e des (valor)
Alguns ensaios sobre o tema.


A palavra trabalho deriva do verbo trabalhar, originário do vocábulo romântico tripaliare. Este, por sua vez, vem do latim tripalium, nome de um antigo e terrível instrumento de tortura, castigo, que se dava aos escravos e, historicamente, o trabalho foi considerado como uma atividade depreciável. Os gregos da Idade de Ouro pensavam que só o ócio criativo era digno do homem livre. A escravidão foi considerada pelas mais diversas civilizações como a forma natural e mais adequada de relação laboral. A ética protestante vem atribuir um valor positivo ao trabalho, considerando-o não como punição mas como oferenda a Deus. A partir de meados do século XIX, servidão, em suas várias formas, fora extinta na maior parte dos países ocidentais, sendo substituída pelo trabalho assalariado, socialmente valorizado. Feitas essas considerações, poderíamos concluir que essa definição dá ao trabalho uma conotação dual, seu valor e desvalor.
Na sociedade contemporânea não há como negar a relação capital/trabalho. Os homens possuem necessidades sociais a satisfazer e, por meio do trabalho, buscam produzir e reproduzir suas vidas sociais. É quase impossível imaginar a vida sem o exercício constante de aperfeiçoamento do homem e suas extensões. Mais do que uma atividade cotidiana que proporciona sobrevivência das pessoas, trabalho deveria ser antes de tudo, um instrumento de crescimento, uma ferramenta que permitisse abrir as portas para os sonhos, desejos e ideais.
O trabalho no capitalismo se torna estranhado, uma vez que, se manifesta predominantemente como criador de valor de troca, ocorrendo aí não apenas o fetichismo da mercadoria, mas também, em conseqüência o estranhamento das relações humanas, uma vez que não somente os produtos do trabalho tornam-se mercadoria, mas também o próprio trabalhador torna-se mercadoria, o que o mutila em sua vida genérica. Ocorre aqui uma relação invertida: ao transformar a natureza com a predominância do trabalho como criador de valor de troca, o homem se aliena, se estranha a si e na relação com o outro; resultando em sua degradação e desvalorização enquanto ser humano.
Na contemporaneidade, a exploração é encontrada de forma escamoteada, porém viva. O trabalhador em geral, mas, em especial o da empresa privada, continua mal pago pela remuneração completamente insuficiente para sua reprodução social, pela carga horária, pelas condições insatisfatórias de trabalho, etc. Além do mais, esse trabalhador embora amparado pela CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas – sofre exploração sutil dessa nova organização do trabalho. Resquícios das formas de produção taylorista-fordista e, agora, toyotista.
Compreender as contradições que se colocam no processo de trabalho é, a nosso juízo, fundamental para que se possa desvendar a realidade e, pari passu, auxiliar a classe trabalhadora a se libertar de um trabalho que, no capitalismo, a sufoca, a agride, a mutila já que o trabalho é, neste modo de produção, alienação do homem. Daí, segundo Marx:
O trabalhador só se sinta junto a si fora do trabalho e fora de si no trabalho. Sente-se em casa quando não trabalha e quando trabalha não se sente em casa. O seu trabalho não é, portanto, voluntário, mas compulsório, trabalho forçado. Por conseguinte, não é a satisfação de uma necessidade, mas somente um meio para satisfazer necessidades fora dele. [....]. Uma vez pressuposta a propriedade privada, minha individualidade se torna estranhada até tal ponto, que esta atividade se torna odiosa, um suplício e, mais que atividade, aparência dela; por conseqüência, é também uma atividade puramente imposta e o único que me obriga a realizá-la é uma necessidade extrínseca e acidental, não a necessidade interna e necessária. (MARX, K. Apud, LIMA, Carlos. 2000: p. 40

Valor e (des) valor
Valor quando traduzimos o trabalho como algo edificante, trabalho-criação, quando esse processo possibilita ao homem em si reconhecer-se no produto do seu trabalho. Quando esse trabalho torna o homem livre, com possibilidades de usufruir do produto final do seu esforço, quando esse trabalho é sinomino de crescimento pessoal.
(Des) valor quando o trabalhador perde a dimensão lúdica do trabalho e fica apenas com a parte obrigatória, trabalho-sobrevivência, quando o trabalhador vende a sua força de trabalho, tornando-se mercadoria nas mãos do capitalista.
“de acordo coma sua natureza contraditória e contrastada, o modo de produção capitalista vai um muito mais longe, o desperdiçar da saúde e da vida do trabalhador, a degradação das suas condições de vida, fazem parte, para o capitalista, da economia na utilização do capital constante e constituem meios de aumentar a taxa de lucro.Como o operário passa a maior parte da sua vida no processo de produção, as condições do processo de produção são, em grande parte, as condições do seu processo vital activo, as suas condições de vida , e a economia(no sentido de poupança) é nessas condições de vida um método para elevar a taxa de lucro.... ” (Marx, K. 190,1975)
    
Dessa forma fica-nos a reflexão
Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e actividades são tragadas pela cobiça.” Karl Marx
Essa frase de Marx nos mostra a essência do trabalho e a que o mesmo no sistema de produção capitalista nos reduz. Valor teria se o trabalho proporcionasse ao homem concomitantemente comer, beber, comprar livros, ir ao teatro, pensar, amar....
TRABALHO EIS AI O FIM DO HOMEM!    


Referencias Bibliográficas
Marx, K. Textos Econômicos. Edições Mandacaru. SP 1990 ‘na coleção biblioteca do socialismo cientifico, n 6’
Marx, K. Textos Filosóficos. Edições Mandacaru. SP 1990 ‘na coleção biblioteca do socialismo cientifico, n 5’
MARX, K. Manuscritos Econômico-Filosóficos, Apud, LIMA, Carlos. Globalização e fala humana no contexto neoliberal, In, Educação: Nave do futuro, PA, Labor Editorial, 2000.
Por Paula Fernanda Menezes de Menezes

domingo, 15 de maio de 2011

Ensaios: Reestruturação produtiva e Novas Relações de Trabalho

Ensaios: Reestruturação produtiva e Novas Relações de Trabalho
Paula Fernanda Menezes de Menezes – Assistente Social

Estamos chegando a meados do século XXI com profundas transformações na historia da humanidade. As crescentes mudanças no cenário sociopolítico e econômico da sociedade contemporânea brasileira, produto das transformações ocorridas no processo de trabalho, explicitadas pela flexibilização, precarização, fragmentação e terceirização, essas novas formas de organização da produção, trouxe aos trabalhadores dos diversos setores, condições material e psicologicamente precárias, bem como o desenvolvimento de várias atividades e a ampliação da jornada de trabalho.
Nessa nova referência de trabalho reorganizada com a reestruturação produtiva cujo esforço de renovação, revoluciona a relação capital - trabalho a cada nova crise e conjuntura. A reestruturação produtiva é compreendida como sendo um fenômeno ligado à globalização, onde as empresas para obterem maior competitividade a nível global se reestruturam, caracterizando-se por dois elementos: Inovação tecnológica[1] e Inovação organizacional[2]. A reestruturação produtiva veio com a chamada "Terceira Revolução Industrial" que tem como paradigma o modelo Toyotista, desenvolvido no Japão na empresa Toyota de 1950 a 1970. Ela se apresentou como oposição ao modelo Fordista-Taylorista de produção e começou a se desenvolver no Ocidente a partir da década de 1970.

Foi a partir dessas transformações ocorridas no mundo do trabalho norteadas pela reestruturação  produtiva, que se reproduziu novas formas de alienação da classe trabalhadora, seja ela de natureza física, psicológica ou social, como composta por um conjunto de reações fisiológicas que, se exageradas em intensidade ou duração, podem levar a um desequilíbrio no organismo psico-físico-social do trabalhador.
Segundo Alves e Antunes (2004), o mundo do trabalho atualmente tem recusado os trabalhadores herdeiros da “cultura fordista”, fortemente especializada, que são substituídos pelo trabalhador “polivalente e multifuncional” da era toyotista. Sendo assim o que muda é a forma de implicação do elemento subjetivo na produção do capital, que, sob o taylorismo /fordismo, ainda era meramente formal e com o toyotismo tende a ser real, com o capital buscando capturar a subjetividade operaria de modo integral.
Ainda com de acordo com Alves e Antunes (2004), todos esses processos e mudanças no mundo do trabalho culminou, naquilo que denominam de, “alienação/estranhamento” que é ainda mais intensa nos estratos precarizados da força humana de trabalho, que vivenciam as condições mais desprovidas de direitos e em condições de instabilidade cotidiana, dada pelo trabalho part-time, temporário, e precarizado. Sob a condição da precarização, o estranhamento assume a forma ainda mais intensificada e mesmo brutalizada, pautada pela perda (quase) completa da dimensão de humanidade. Ainda concordando com Alves e Antunes são nos estratos mais penalizado pela precarização/exclusão do trabalho, que o estranhamento e o fetichismo capitalista são diretamente mais desumanizadores e bárbaros em suas formas de vigência e se manifestam hoje, intensamente, em tantas partes do mundo e, particularmente, na América Latina.
 
Diante desse cenário somos convidados a refletir sobre o movimento que esses trabalhadores veêm fazendo em torno dessas mudanças, como essa lógica dos Programas de qualidade total (PQT) vem alterando o papel do trabalhador. Existe uma mudança de tratamento do trabalhador a partir do PQT, desmancha-se aquele padrão hierárquico de organização (Gerente, supervisor, trabalhadores...) e agora o trabalhador passa a ser visto como co-participe do sucesso da empresa, o mesmo tem que ter qualidades como iniciativas, criatividade, liderança, etc. Todo esse aparato psico-empresarial proporciona ao trabalhador um sentimento de auto valorização, de pertencimento na empresa, a ilusória frase “eu visto a camisa da empresa”, tudo isso distancia o trabalhador de sua real luta, a Luta de Classe. Nessa fase o mesmo não se percebe mais enquanto classe, coletividade, apenas mais um na “corrida dos ratos[3]” mergulhado em sua individualidade e ávido por sucesso, premiação e promoção na empresa.
Há quem faça severas críticas a esse modelo pós-moderno de administrar, uma vez que este não trabalha a igualdade, a coletividade, a repartição dos lucros, esse modelo escamoteia a realidade da exploração, agora de forma menos sentida, logo, menos sofrida. Segundo Seligmann (1994) é uma forma de controle sofisticado onde:
As instrumentações de dominação que se fazem através da desinformação, da utilização de sentimentos e da estimulação do orgulho pelo trabalho bem feito são algumas das técnicas adotadas pelo poder que recebem fortalecimento considerável da disciplinação, favorecendo a eficácia da mesma, preparando o terreno para garantir a aceitação das exigências disciplinares. Desta forma, assegura-se também que os “corpos dóceis”, de que nos fala Foucault, se tornem ainda mais dóceis. (1994: 97-98).


Com essas exemplificações agrego à tese que defende Antunes e Alves (2004), que não há o fim do trabalho e sim uma reorganização nesse mesmo mundo e consequentemente também a classe trabalhadora se organiza conforme se organiza o trabalho, sendo assim a classe trabalhadora hoje é compreendida pela totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho classe-que-vive-do-trabalho, despossuídos dos meios de produção.

[3] Referência retirada do livro Pai Rico Pai Pobre de Robert Kiyosaki e Sharon Lechter




[1]Base microeletrônica (chips). Exemplos: computador, máquinas de controle numérico computadorizado, robôs, CAD-CAM (de Computer Aided Design e Computer Aided Manufacturing; o desenho e produção industrial com auxílio de computadores, etc. (Coletânea diversas)
[2]Terceirização, just-in-time, kanban, ilhas de produção, trabalho em equipe, condomínio ou pólo industrial, os Círculo de Controle de Qualidade - CCQ, a qualidade total, etc. (Coletânea diversas)


Referencias Bibliográficas.

Antunes Ricardo e Alves, Giovanni. As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital. Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 87, p. 335-351, maio/ago. 2004.
PINTO, G. Augusto. A organização do trabalho no século 20: taylorismo, fordismo e toyotismo. São Paulo: Expressão Popular,2007.
SELIGMANN, Silva, Edith. Desgaste Mental no Trabalho Dominado. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Cortez Editora, 1994