"...aprendi que aprender é conscientizar-se e que o desenvolvimento de nossa consciência social é o acréscimo de esperanças angustiantes, que o prazer do aprendizado se mescla com a dureza de uma realidade social triste e desesperada que se incorpora e constroi a consciência do mundo e da vida..." ( Ex-Senador Lauro Campos)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Descrição Valorativa do Sistema Capitalista.


Eduardo Galeano - O sistema/ 2
(Retirado do Livro dos Abraços)

Tempo dos camaleões: ninguém ensinou tanto a humanidade quanto estes humildes animaizinhos. Considera-se culto quem oculta, rende-se culto a cultura do disfarce. Fala-se a dupla linguagem dos artistas da dissimulação. Dupla linguagem, dupla contabilidade, dupla moral: uma moral para dizer, outra moral para fazer. A moral para fazer se chama realismo.
A lei da realidade e a lei do poder. Para que a realidade não seja irreal, dizem os que mandam, a moral deve ser imoral.
Celebração das bodas entre a palavra e o ato
Leio um artigo de um escritor de teatro, Arkadi Rajkin, publicado numa revista de Moscou. O poder burocrático, diz o autor, faz com que os atos, as palavras e os pensamentos jamais se encontrem: os atos ficam no local de trabalho, as palavras nas reuniões e os pensamentos no travesseiro.
Boa parte da força de Che Guevara, penso, essa misteriosa energia que vai muito alem de sua morte e de seus equívocos, vem de um fato muito simples: ele foi um raro exemplo dos que dizem o que pensam e fazem o que dizem.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Minha Homenagem as lutas Indigenas


Celebração das contradições/2 - Eduardo Galeano - Livro dos Abraços

Desamarrar as vozes, dessonhar os sonhos: escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da América.
Nestas terras, a cabeça do deus Elegguá leva a morte na nuca e a vida na cara.
Cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. 
Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. 
Os sonhos anunciam outra realidade possível e os delírios, outra razão.
Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos.
A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança,
porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de
viver no mundo.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Ensaios - Sobre a Política de Redução das taxas de Juros.


*Texto construído coletivamente com base em documentos e textos retirados da internet. Alunos da turma do curso de Formação para Educadores Sociais 2013.
Alinne Jamille, Bruna Novaes, Lúcio Jorge, Kelly Fortes, Paula Menezes e Val Fernandes.

ANALISE DE CONJUNTURA: Economia Nacional
Sobre a Política de Redução das taxas de Juros

O que é Inflação:
Em economia, inflação é a queda do valor de mercado ou poder de compra do dinheiro. Porém, é popularmente usada para se referir ao aumento geral dos preços. Inflação é o oposto de deflação. Índices de preços dentro de uma faixa entre 2 a 4,5% ao ano é uma situação chamada de estabilidade de preços. Inflação "zero" não é o que se deseja, pois pode estar denunciando a ocorrência de uma estagnação da economia, momento em que a renda e, consequentemente, a demanda, estão muito baixas, significando alto desemprego e crise.

O que é Juro:
Para entender a taxa básica de juros, é preciso primeiro saber o que é o juro. O dicionário Houaiss o define como "quantia que remunera um credor pelo uso de seu dinheiro por parte de um devedor durante um período determinado, ger. uma percentagem sobre o que foi emprestado; soma cobrada de outrem, pelo seu uso, por quem empresta o dinheiro". Em linguagem mais simples, Carlos Antonio Luque, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), dá um exemplo de como isso funciona: "Se eu tiver à disposição uma maçã e se alguém quiser tomá-la emprestada, eu vou exigir que, no futuro, essa pessoa me devolva a maçã e mais um pedaço. Esse pedaço extra é o que representa os juros".
No Brasil, o governo federal emite títulos públicos e, por meio da venda deles, toma empréstimos para financiar a dívida pública no país e outras atividades como educação, saúde e infraestrutura. Quem compra esses títulos aplica seu dinheiro para, em troca, receber uma contrapartida: os juros. Mas quem define isso? "O Banco Central, que administra os leilões de títulos do governo, define uma remuneração sobre eles, que é a taxa básica de juros", explica o professor. Dentro desse órgão, existe outro chamado Comitê de Política Monetária, o Copom. Ele foi criado em 1996 e sua função é, como diz o próprio nome, definir as diretrizes da política monetária do país e a taxa básica de juros. Periodicamente, o Copom divulga a taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia), que é a média de juros que o governo brasileiro paga pelos empréstimos tomados de bancos. É a Selic que define a taxa básica de juros no Brasil, pois é com base nela que os bancos realizam suas operações, influenciando as taxas de juros de toda a economia.
Aumentar ou reduzir esse imposto pode trazer diferentes implicações à economia de um país. "Quando o Banco Central aumenta a taxa de juros, ele está nos dando a seguinte orientação: 'Não consumam hoje os bens, peguem seu dinheiro e apliquem no mercado financeiro, pois assim vocês poderão consumir mais no futuro'. Quanto ele a reduz, diz o contrário, que é mais conveniente comprar os bens hoje e não aguardar o futuro para obtê-los", diz Carlos Antonio Luque. Ou seja, o aumento na taxa básica de juros atrai mais investimentos em títulos públicos e a quantidade de dinheiro em circulação diminui. Com isso, as pessoas compram menos. A lei de mercado faz com que a queda na demanda baixe os preços dos produtos e serviços em oferta. Assim, consegue-se conter o avanço da inflação, mas o ritmo da economia desacelera. Porém, se a taxa for reduzida, acontece o inverso: os bancos diminuem os investimentos nos títulos do governo e passam a aumentar o crédito à população, o que eleva a quantidade de dinheiro circulando e estimula o consumo. O crescimento na demanda de produtos e serviços aquece o setor produtivo e, consequentemente, a economia como um todo. Em compensação, faz os preços se elevarem e possibilita o avanço da inflação.
Analise
Em meados de 1999 o Brasil se somou ao então restrito grupo de países que na época adotavam como política anti-inflacionária as chamadas “metas de inflação”. Após a adoção do regime de câmbio flutuante, a implementação das metas foi uma forma de substituir a chamada “âncora cambial” – sistema que funcionou durante mais de quatro anos e que ajudou a fazer a transição do regime de alta inflação para outro de inflação sob controle.
A taxa de juros é o instrumento utilizado pelo BC (Banco Central) para manter a inflação sob controle ou para estimular a economia. Se os juros caem muito, a população tem maior acesso ao crédito e consome mais. Entretanto o aumento da demanda pode pressionar os preços caso a indústria não esteja preparada para atender um consumo maior.
Por outro lado, se os juros sobem, a autoridade monetária inibe consumo e investimento - que ficam mais caros - a economia desacelera e evita-se que os preços subam, ou seja, que haja inflação.
Os juros ou taxas possui forte interferência na economia, no custo do capital (tomada de crédito) das empresas e dos consumidores, estimulando ou desestimulando o consumo e os investimentos da cadeia produtiva.
O cenário econômico de 2006 e 2007 apresentou-se de acordo com o Bacen , uma redução dos juros em 16,5% e que permaneceu nesse nível até dezembro de 2007. De lá pra cá, muita água passou por debaixo da ponte, e muito pouco se fez para que houvesse um equilíbrio cambial.
Todavia, com as várias quebras estruturais ocorridas, 2011 mostrou uma economia ainda com índices de juros consideravelmente autos. Contudo, no segundo semestre – agosto – os juros que até então era de 12,5%, reduziu para 7,5% até o final de dezembro de 2012.
O ano de 2012 foi um ano de adaptações, um ano difícil, onde os juros começaram a baixar, ocasionando um processo atrativo que impulsiona a procura de crédito (financiamentos em longo prazo, compras parceladas e outros). E em busca de melhores rendimentos os Bancos se abrem em busca de novos investimentos, financiando projetos, produtos e novos investidores.
O crescimento econômico é formado pelo tripé da política monetária (taxa de juros), política fiscal (superávit primário) e taxa de câmbio, com vistas ao alcançe de uma determinada meta de inflação. Acontece que cada uma dessas variáveis interfere na outra de forma antagônica. Por exemplo, a redução da taxa de juros pode gerar aumento de inflação, porque põe em circulação um montante maior de moeda, que antes estavam aplicados em títulos em função do interesse pelos juros pagos.
Esse aumento de moeda circulante gera aumento de consumo. Até certo ponto isso estimula a economia, o que é benéfico em um momento onde o próprio Planalto já reconhece a previsão de crescimento do PIB de 2012 para pífios 1,6%. Porém, a partir de um limite, o aumento da demanda acima da oferta de produtos leva ao aumento de preços: a inflação de demanda. O problema, então, é o limite em que o remédio passa a ser veneno. E quem define isso é o Banco Central, mediante as reuniões do Copom.
No início de março deste ano de 2013 o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) anunciou que o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no ano de 2012 cresceu 0,9 % em relação ao ano precedente, constituindo um total de 4,4 trilhões de reais, este resultado foi um dos mais agravantes, desde 2009, quando a economia brasileira sofreu uma compressão de 0,33%, devido ao abalo ocasionado pela crise econômica e financeira mundial.
No Dia 12/03/2013 Dima afirmou que o PIB vai crescer para melhorar a vida do Brasileiro e para isso se concretizar de acordo com a mesma, algumas medidas já foram tomadas: diminuição das taxas de juros e redução de impostos.  Nesse sentido, alguns estudos demonstram que os países chamados emergentes continuam crescendo nos últimos três anos, contrapondo os países centrais que continuam sofrendo com a estagnação econômica.
Apesar do crescimento dos países emergentes, a dinâmica permanece sendo ditadas pelas potências imperialistas, e é certo que uma hora ou outra essa crise mundial acabará afetando, ou melhor dizendo já está afetando desenvolvimento do restante do mundo.
Cotidianamente escutamos falar a respeito do crescimento do PIB brasileiro. No entanto, uma dúvida paira no ar: Esse crescimento está contribuindo para a melhoria de vida da população brasileira? De que maneira o mesmo vêm sendo aplicado? È revestido para a elaboração de serviços sociais, políticas públicas de qualidade, educação, saúde, etc?
Quem se beneficia com a maior “fatia do bolo”? O orçamento aprovado pelo Senado deixa um rastro. Segundo a Auditoria da Dívida, para 2013, o Orçamento da União é de R$ 2,276 trilhões. A maior parte do orçamento vai para gastos com despesas obrigatórias, como amortização, pagamento de juros da dívida (R$ 900 bilhões). Podemos concluir de que maior parte de tudo o que será produzido no país vai para a especulação internacional. Enquanto isso o governo promete aplicar o equivalente a 7% do PIB até 2015 em investimento direto em educação. De 2015 até 2020, o percentual crescerá para 10%.
Enquanto isso o Brasileiro dorme!!!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Um Filósofo Democrático - Carlos Nelson Coutinho - Outubro 1998

Compartilho com vocês, amigos leitores, uma homenagem de Carlos Nelson Coutinho a Leandro Konder, um escrito belíssimos e cheio de reflexões teóricas que nos possibilitam o exercício de um posicionamento reflexivo. Não retirei nada de seu escrito, esta na integral, apenas sinalizei os pontos que para mim serviram de reflexão.

Carlos Nelson Coutinho - Outubro 1998. 

Gostaria de começar elogiando a iniciativa da comissão que organizou esta "Jornada Leandro Konder", destacando a participação nesse empreendimento da Profª. Maria Orlanda Pinassi, que acabou de nos fazer uma apresentação tão emocionada. É extremamente importante que estejamos começando a discutir coletivamente, nos quadros da universidade, a obra de Leandro Konder. Essa obra constitui, sem dúvida, um dos capítulos mais significativos da história do marxismo no Brasil; e o marxismo, por sua vez, constitui um capítulo decisivo da história da cultura brasileira no século XX.
Também gostaria de começar lembrando que, para mim, é muito difícil ser objetivo em relação a Leandro, à sua personalidade e à sua produção teórica. Iniciamos nossa colaboração intelectual há muitos anos, desde 1962; e, de lá para cá, fomos nos tornando cada vez mais, além de estreitos colaboradores, amigos íntimos e fraternos. Por isso, tenho sempre a impressão de que, quando elogio Leandro, também estou me elogiando, ou que, quando o criticam, também estou sendo criticado. Tentarei, porém, ser o mais objetivo possível, pois acredito que, em princípio, a proximidade com o objeto nem sempre nos impede de captar sua grandeza. 
1. 
Dois eixos importantes articulam a vida e a obra de Leandro, se é que se pode resumir uma obra e uma vida tão ricas em apenas dois eixos. Estes seriam a coerência e a  autonomia (ou independência) intelectual. Trata-se, certamente, de duas coisas estreitamente articuladas. Sem autonomia, a coerência leva muitas vezes ao dogmatismo, ao fechamento diante do novo, da riqueza sempre renovada do real; lembro que o Barão de Itararé, que é objeto de um belo livro de Leandro, dizia que só muda de idéias quem tem idéias. Em Leandro, a coerência se articula organicamente com a autonomia intelectual; por isso, sua inegável coerência teórica e ético-política não se converte em teimosia subjetiva, mas sim numa rica e dialética relação com a objetividade, que é mutável e plural, mas que também apresenta linhas de continuidade. Por outro lado, a autonomia sem coerência - que é, de resto, uma falsa autonomia - pode levar, no terreno teórico, ao ecletismo, à adesão irrefletida às mais efêmeras modas culturais; e, no terreno político, ao oportunismo, ao transformismo, à tentativa de estar sempre de acordo com a corrente dominante. Leandro soube evitar estas duas tentações, o ecletismo e o oportunismo, às quais sucumbiram tantos importantes intelectuais brasileiros da sua geração - e não só dela. E o fez precisamente porque soube articular, na sua vida e na sua obra, coerência e autonomia. E, já que estou falando de coerência, gostaria de chamar a atenção para algo que me parece fundamental: é impossível examinar a produção teórica de Leandro - uma produção que se iniciou há cerca de 40 anos - sem se dar conta de que ela está estreitamente articulada com suas escolhas ético-políticas. Ele não é um intelectual acadêmico que, de vez em quando, assina um manifesto ou toma posição em face de um problema político posto na ordem do dia. Como marxista, Leandro concebe sua atividade intelectual como um modo específico, entre outros modos possíveis, de atuar sobre o real, de contribuir para sua transformação. Não se trata de um intelectual que tem "opiniões políticas", mas de alguém que, a partir de uma coerente visão de mundo, de uma decisão muito clara de mudar o mundo, resolveu colaborar com esta ação de mudança através daquilo que sabe fazer melhor, ou seja, lidar com a teoria. Não é que Leandro tenha se recusado, em muitos momentos concretos, a pixar paredes, a distribuir panfletos na rua, a fazer agitação, ou seja, a "cumprir tarefas"; mas foi certamente tornando-se intelectual que ele julgou ser capaz de contribuir do modo mais adequado, em função de seu caráter e de seus talentos, não só para interpretar o mundo, mas também - como diria o velho Marx - para transformá-lo.
Leandro se tornou comunista nos longínquos anos 50, quando muitos de vocês certamente nem eram nascidos, e conserva-se comunista até hoje. Também neste terreno soube combinar coerência com autonomia: sem abandonar sua opção comunista, radicalmente anticapitalista, foi capaz de reformular posições, de atualizá-las, de fazê-las aderir à mobilidade do real. Neste particular, haveria muita coisa a dizer e a lembrar, desde as difíceis lutas que ele travou no interior do PCB (a condenação pública da intervenção do Pacto de Varsóvia na Tchecoslováquia, em 1968; a defesa radical da democracia como valor universal contra as hesitações da direção partidária, no início dos anos 80, etc., etc.) até a sofrida decisão de sair deste Partido e, mais tarde, de ingressar no PT.
Mas vou recordar apenas um pequeno exemplo pessoal. Leandro é filho de um importante dirigente comunista brasileiro, Valério Konder, por quem ele sempre teve uma grande admiração e respeito. Mas, desde o início de sua militância comunista, suas posições iam freqüentemente de encontro às do seu pai - e Leandro jamais hesitou em tomá-las quando as julgou corretas. Em 1965, dois intelectuais dissidentes soviéticos, Siniavski e Daniel, se bem lembro dos nomes, foram condenados na União Soviética. Leandro assinou um manifesto de intelectuais contra essa condenação. Eu estava viajando, não pude assiná-lo. Voltando ao Rio, encontrei-me com Dr. Valério e ele, julgando que eu não assinara o manifesto por dele discordar, foi logo me dizendo: "Meu filho, seu amigo é um irresponsável: assinou um documento contra o Comitê Central do PCUS. E quem é ele para ir de encontro ao PCUS?". Como muitos de sua geração, Dr. Valério era um "patriota soviético": confundia a defesa do comunismo com o apoio irrestrito à União Soviética. Sem deixar de admirá-lo e de respeitá-lo (e Dr. Valério era realmente uma pessoa admirável e respeitável), Leandro nunca se submeteu às suas opiniões pró-soviéticas.
Além de aderir muito cedo ao comunismo como escolha política, Leandro também se tornou marxista: e o marxismo foi o paradigma teórico que orientou e orienta até hoje sua produção teórica. Ele não sucumbiu às tentações da chamada "pós-modernidade", que levaram muitos dos intelectuais de nossa geração não só a abandonar o marxismo, mas até a se tornarem, em muitos casos, raivosamente antimarxistas. O marxismo, para Leandro, não foi uma moda passageira: foi uma complexa e sólida opção teórica, cimentada num profundo processo de aprendizado. Tanto é assim que ele continua a ser marxista, um marxista de profundo espírito crítico, é verdade, mas - precisamente por isso! - marxista. Como ele não aprendeu marxismo nem nos pífios manuais da extinta Academia de Ciências da URSS nem nos folhetos de Mao Tsé-tung, mas sim lendo Marx e Engels, lendo Lukács e Gramsci, lendo a Escola de Frankfurt, etc., Leandro pôde enfrentar com serenidade teórica e coerência política a chamada "crise do marxismo e do comunismo". Ele sabe muito bem que o que entrou em crise não foi o marxismo, nem o comunismo como proposta de emancipação humana, mas sim determinadas formas histórico-concretas assumidas pelo comunismo e pelo marxismo nesse contraditório e tumultuado século XX. 
2. 
As primeiras produções teóricas de Leandro Konder vieram à luz no início dos anos 60. Dentre elas, as mais significativas foram publicadas, entre 1960 e 1963, na revista Estudos Sociais, uma revista teórica do PCB, dirigida então, entre outros, pelo meu querido amigo Armênio Guedes, aqui presente (1). Leandro publicou nesta revista cinco ensaios que chamaram a atenção de muita gente, mas, em particular, de um jovem baiano, que na época não tinha nem 20 anos, e que, acreditem, foi convertido neste senhor que agora lhes fala. Pois bem, nestes ensaios, Leandro tratava de Rousseau e de Sartre, de Fernando Pessoa e da estética marxista, da necessidade de um diálogo entre marxistas e cristãos. Os temas não eram casuais: é fácil perceber que estes ensaios juvenis de Leandro já definem de certo modo as escolhas temáticas que ele iria desenvolver ao longo de sua atividade intelectual sucessiva, nos quase quarenta anos que nos separam do início dos anos 60.
O ensaios sobre Sartre, Rousseau e Fernando Pessoa antecipavam um dos eixos da produção teórica de Leandro, ou seja, a abordagem monográfica de alguns importantes pensadores (como Hegel, Fourier, Lukács e Benjamin) e também de significativos artistas (como Kafka e Brecht). O texto sobre a estética marxista - transcrição de uma conferência pronunciada no Iseb, na qual, de resto, podemos encontrar uma das primeiras menções a Gramsci feitas no Brasil - antecipa, por sua vez, outra linha da atividade de Leandro, ou seja, a reflexão sobre a teoria marxista, sobre a filosofia e a estética marxistas, uma linha investigativa que vai de seus primeiros livros, Marxismo e Alienação e Os marxistas e a arte, até o recente O futuro da filosofia da práxis e a pesquisa sobre o conceito de ideologia, que ele está atualmente desenvolvendo. Finalmente, o ensaio que discute e propõe o diálogo entre marxistas e cristãos (que, na época, com meu sectarismo juvenil, eu achei até, digamos, excessivamente tolerante com os cristãos) indica um traço marcante da ação teórica e política de Leandro, que iria em seguida se acentuar cada vez mais: um profundo espírito de tolerância, a abertura para o diverso, a permanente preocupação em manter abertas as condições para um fecundo diálogo entre o marxismo e as demais correntes de pensamento, em particular o cristianismo. Uma atitude tolerante que não se manifesta apenas no terreno da batalha das idéias, mas que é um traço essencial da personalidade de Leandro: não é casual que ele tenha hoje muitos amigos cristãos, pelo menos em tão grande quantidade como tem amigos marxistas. E tampouco me parece casual que o saudoso José Guilherme Merquior, talvez o mais brilhante pensador liberal brasileiro, tenha dedicado a Leandro o seu livro de crítica ao "marxismo ocidental" (2). 
3. 
Para avaliar melhor o papel de Leandro Konder na história da cultura brasileira, seria interessante recordar o que significou, sobretudo para nosso marxismo, esse início dos anos 60. O XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, ocorrido em 1956, quando Kruschev denuncia os crimes de Stalin, teve repercussões muito fortes no Brasil, em particular no Partido Comunista Brasileiro, que então ainda detinha, praticamente, o monopólio da difusão do marxismo entre nós. Entre outras consequências, o marxismo brasileiro começou então a se abrir, ainda que timidamente, para a recepção de autores até este momento tidos como "heterodoxos", ou mesmo como "renegados" e "revisionistas".
Até então, as fontes para o estudo do marxismo no Brasil eram os manuais publicados em série pela Academia de Ciências da hoje extinta União Soviética. Que Leandro tenha sempre se recusado a considerar tais "manuais" como fonte autorizada de marxismo foi algo que pude atestar desde nossos primeiros encontros. Conto-lhes um fato, revelador não só da autonomia intelectual do Leandro, mas também do seu apurado senso de humor. Quando eu ainda morava na Bahia, fui visitar o Leandro numa de minhas idas ao Rio, aí por volta de 1962; em sua mesa de trabalho, estava um enorme livro verde, recém-publicado pelo Editorial Vitória, a editora do PCB, cujo título era Fundamentos do marxismo-leninismo; ri muito ao ver que Leandro havia escrito na capa do livro um enorme A, transformando assim o título do besteirol em Afundamentos do marxismo-leninismo. Diante do meu riso, ele ainda comentou: "Veja, estes manuais são sempre escritos por muita gente, mas não podemos dizer que sejam escritos ''por várias mãos'', e sim ''por várias patas''.
O fato é que, na esteira do XX Congresso e da conseqüente renovação do PCB, teve lugar entre nós uma abertura do marxismo, uma quebra do monopólio quase exclusivo dos manuais soviéticos de "marxismo-leninismo". É muito importante registrar que Leandro foi um dos campeões desta abertura. Foi sobretudo graças a ele que se tomou conhecimento no Brasil de autores como Georg Lukács, Antonio Gramsci, Lucien Goldmann e tantos outros, que ele diligentemente sugeria a Ênio Silveira e a Moacyr Félix para publicação pela Editora Civilização Brasileira e, mais tarde, também pela Revista Civilização Brasileira. Em muitos casos, Leandro assumiu diretamente a tarefa de traduzir e editar tais autores, como foi o caso da coletânea Ensaios sobre literatura, de Lukács, publicada em 1965, que teve um extraordinário papel na renovação da política cultural e das concepções estéticas da esquerda, um terreno que ocupava intensamente, na época, o debate intelectual em nosso País. Leandro prefaciou também, junto comigo, a primeira edição brasileira de Gramsci, o volume temático Concepção dialética da história. Penso que José Paulo Netto irá explicitar mais amplamente, em sua intervenção, o papel decisivo que Leandro desempenhou na batalha de idéias travada pela esquerda ao longo dos difíceis anos 60.
Mas, ao lado desta sua atividade como editor e como formulador no terreno da política cultural, gostaria de voltar à atividade de Leandro como ensaísta. Depois dos seus ensaios em Estudos Sociais, já lembrados, Leandro publicou em 1965 um livro chamado Marxismo e alienação, seguido, em 1967, por um outro intitulado Os marxistas e arte. Não diria que, com tais livros, Leandro iniciou o estudo e a difusão do marxismo no Brasil. Já dispunhamos, na época, de importantes produções marxistas de autores nacionais, mas que se concentravam sobretudo no terreno da historiografia (basta lembrar aqui a obra de Caio Prado Júnior e de Nélson Werneck Sodré) e, em menor medida, no campo da crítica literária (cabe mencionar as produções de Astrojildo Pereira e do próprio Sodré).
Mas, ao contrário, até o início dos anos 60, era paupérrimo o tratamento propriamente teórico-filosófico do marxismo por autores brasileiros. Nos anos 40, com nova edição no início dos anos 60, Leôncio Basbaum publicara uma Sociologia do materialismo, que vocês certamente não leram e será muito bom que não leiam nunca: é um amontoado de sandices. Vocês também não devem ter lido dois livros de filosofia publicados por Caio Prado Júnior, nos anos 50, intitulados Dialética do conhecimento e Notas introdutórias à lógica dialética, felizmente, creio e espero, não mais reeditados: é penoso ver como o brilhante historiador paulista enfrenta temas com os quais tem escassa familiaridade. É certamente de lamentar que Caio Prado Jr. tenha abandonado sua obra historiográfica sobre a Formação do Brasil contemporâneo (do qual só publicou o volume sobre a Colônia) para dedicar-se a temas que lhe eram fundamentalmente estranhos. E, se lembrarmos um livro do médico paulista Álvaro de Faria, Introdução ao estudo do formalismo e das contradições, publicado em 1960, torna-se ainda mais evidente o quadro de completa indigência do marxismo brasileiro da época no terreno da filosofia.
Neste quadro, os dois livros de Leandro por mim mencionados são como um raio em dia de céu claro. Junto com Origens da dialética do trabalho, publicado por José Arthur Gianotti em 1966, estes dois livros põem o marxismo teórico brasileiro em outro nível, entre outras coisas porque trazem para discussão as idéias dos mais importantes representantes do chamado "marxismo ocidental", como Lukács, Gramsci, Goldmann, Sartre, etc. Se vocês lerem, por exemplo, Marxismo e alienação, verão o correto tratamento de um tema filosófico decisivo, até então completamente ignorado pelos nossos marxistas; se lerem Os marxistas e a arte, tomarão conhecimento das idéias estéticas de uma plêiade de notáveis autores marxistas (Caudwell, Benjamin, Della Volpe, etc., etc.), então inteiramente desconhecidos no Brasil. Infelizmente, estes livros estão esgotados e não foram nunca reeditados (Leandro parece ser contra a reedição de seus livros!), o que dificulta a percepção de sua radical novidade no quadro do marxismo teórico brasileiro. Eles tiveram um importante papel na batalha de idéias em que os intelectuais de esquerda estávamos então empenhados. E não foram poucos os que se aproximaram do marxismo através desses livros de Leandro. Com eles, estavam definitivamente "afundados" entre nós os pífios manuais da Academia soviética.
Hoje pode até parecer banal que um autor marxista tenha abordado o tema da alienação ou que tenha posto em circulação entre nós autores como Lukács, Gramsci ou Benjamin. Decerto, quase nenhum marxista brasileiro ignora atualmente estes temas ou estes autores. Mas, em meados dos anos 60, quando Leandro publicou seus livros, tratava-se certamente de uma radical inovação. E, se tais temas ou autores se tornaram hoje banais no Brasil, isso se deve em grande parte à produção intelectual de Leandro nos anos 60. Neste sentido, não hesitaria em dizer que essa produção é um radical ponto de inflexão na história do marxismo brasileiro. A partir dos primeiros livros de Leandro, passou-se a cobrar e a exigir da reflexão marxista entre nós um outro nível. Evidentemente, não posso aqui, no pequeno espaço de tempo de que disponho, discutir mais profundamente as indiscutíveis grandezas e também os eventuais limites da produção teórica de Leandro. Espero que essa discussão se inicie nas outras intervenções e nos debates que se seguirão. Gostaria apenas de ressaltar que, sem uma análise dessa produção teórica, faltará um capítulo essencial na história, não só do marxismo brasileiro, mas também do pensamento social e estético em nosso País. 
4. 
Mas eu gostaria também de recordar um aspecto da produção cultural e da ação política de Leandro Konder que nem sempre é devidamente ressaltado, ou seja, sua atividade como jornalista, à qual dedicou, desde jovem, uma parte significativa de sua atividade intelectual. Com o codinome de Pedro Severino, no início dos anos 60, Leandro manteve uma coluna satírica de elevado nível no semanário comunista Novos Rumos; lembro-me bem das risadas que dava ao ver que Pedro Severino, ironizando as primeiras incursões do misticismo orientalista no Brasil, insistia em chamar de zen-bundistas os que se diziam interessados nas religiões orientais. E quem não continua a rir hoje quando lê, em sua coluna quinzenal em O Globo, as peripécias e reflexões de Alberto, o simpático sapateiro anarquista por trás do qual Leandro, como Drummond com seu elefante, costuma freqüentemente se disfarçar? Quando forem publicadas suas obras completas, certamente não serão poucos os volumes que recolherão esta vasta e significativa produção jornalística de Leandro. Mas, além dessa suas colaborações regulares em Novos Rumos e em O Globo, separadas por quase quarenta anos, Leandro também desempenhou outras atividades jornalísticas. Foi, por exemplo, o eficiente e pluralista editor cultural do semanário Folha da Semana, que o PCB fez publicar no Rio entre 1965 e 1966, já depois do golpe de 64, mas ainda antes do AI-5; ele soube reunir então, na página cultural deste semanário, intelectuais de diversa origem e posição teórica, facilitando a interlocução dos comunistas com os intelectuais.
Mais tarde, na década de 70, Leandro (com os pseudônimos de F. Teixeira e de Lair Cordeiro) foi um ativo articulista da Voz Operária no exílio, ou seja, do pequeno jornal do Comitê Central do PCB, que era então feito em Paris e impresso em Roma, para depois ser mandado clandestinamente para o Brasil. Eu e Armênio, que também trabalhávamos na Voz(Armênio era nosso democrático editor-chefe!), lembramos bem o seguinte: quando estávamos para fechar o pequeno jornal e alguém não aparecia para trazer seu artigo previamente encomendado (o que acontecia muitas vezes!), Armênio dizia: "Leandro, escreva aí 25 linhas". E Leandro imediatamente sentava e escrevia, fossem 25 ou 55 linhas, qualquer que fosse o assunto proposto, um tema político, cultural ou até esportivo. O artigo saía do tamanho certo, quase sem emendas, sempre preciso e inteligente. Eu nunca conseguia fazer isso, ficava até meio deprimido, mas Armênio, como bom e solidário baiano, me consolava: "Carlito, é essa a diferença entre a cultura teuto-carioca e nossa complicada cultura baiana". Todos os jornalistas profissionais que conviveram com Leandro (e lembro aqui do nosso querido amigo comum Luiz Mário Gazzaneo) são unânimes em reconhecer essa extraordinária capacidade jornalística de Leandro. Uma capacidade que, também nesse caso, foi sempre posta a serviço de uma batalha política e cultural. 
5. 
Talvez seja o momento de tentar propor um balanço da atividade intelectual e política de Leandro Konder, um balanço provisório, é claro, porque ele tem ainda muito a nos dizer. Sempre que penso na atividade de Leandro, como escritor, como jornalista, como militante político, como professor, recordo uma observação de Gramsci, um autor que nos é, a mim e a Leandro, muito caro. Gramsci diz o seguinte: "Criar uma nova cultura não significa apenas fazer individualmente descobertas ''originais''; significa também, e sobretudo, difundir criticamente verdades já descobertas, ''socializá-las'' por assim dizer; e, portanto, transformá-las em base de ações vitais, em elemento de coordenação e de ordem intelectual e moral. O fato de que uma multidão de homens seja conduzida a pensar coerentemente e de maneira unitária a realidade presente é um fato ''filosófico'' bem mais importante e ''original'' do que a descoberta, por parte de um ''gênio'' filosófico, de uma nova verdade que permaneça como patrimônio de pequenos grupos intelectuais" (3)Se Gramsci está certo - e eu creio que esteja -, foram muito poucos os intelectuais brasileiros que contribuíram tanto como Leandro para a criação de uma "nova cultura" entre nós. Com seu extraordinário talento, ele certamente poderia ter se dedicado a descobrir "novas verdades" que se restringissem a "pequenos grupos intelectuais". Optou, ao contrário, por "socializar verdades já descobertas", por transformá-las em patrimônio de muitos, em base de ações vitais efetivamente transformadoras do real. Fez isso de modo sistemático em sua produção teórica, em sua atividade jornalística, em sua militância política, em sua atuação mais recente como professor e como mestre.
Cabe aqui uma breve palavra sobre Leandro como professor, breve porque acredito que a amiga Margarida Neves vai falar mais detidamente sobre esse aspecto da atividade de Leandro, já que os dois trabalham juntos na mesma Universidade. Leandro só se tornou professor regular tardiamente, no início dos anos 80, depois de voltar do exílio, quando então passou a ser possível a um intelectual comunista ingressar como professor regular na Universidade, inclusive numa universidade formalmente católica. Mas, mesmo antes disso, Leandro já era um professor e um mestre: sou testemunha de que, até nas épocas mais difíceis da ditadura, ainda que correndo riscos, Leandro nunca recusava o convite de qualquer pequeno grupo de estudantes, de sindicalistas, de profissionais liberais para fazer uma conferência ou dar uma aula sobre Lukács, sobre marxismo, sobre estética, sobre análise de conjuntura, etc. Isso fazia parte, dizia ele, de sua militância, de seu empenho em "socializar a verdade", em difundi-la entre um número cada vez maior de pessoas. Não está entre os menores crimes da ditadura ter mantido Leandro tantos anos fora da Universidade, o que decorria do fato de que não existia em nosso País liberdade de pensamento e de expressão do pensamento.
Por tudo isso, Leandro está entre os poucos intelectuais brasileiros que podem reivindicar o título gramsciano de "filósofo democrático". Definindo este conceito, diz Gramsci: "Compreende-se assim por que uma das maiores reivindicações das modernas camadas intelectuais foi a da chamada ''liberdade de pensamento e de expressão do pensamento (imprensa e associação)'', já que só onde existe essa condição política se realiza a relação de professor-discípulo no sentido mais geral [...]; e, na realidade, só assim se realiza um novo tipo de filósofo, que se pode chamar de ''filósofo democrático'', isto é, do filósofo consciente de que a sua personalidade não se limita à sua individualidade física, mas é uma relação social ativa de modificação do ambiente cultural" (4).
Quem diz democracia diz também generosidade. E o traço caracterial de Leandro que certamente mais me impressionou, ao longo destes quase quarenta anos de íntima convivência e de amizade fraterna, foi sua enorme generosidade. Uma generosidade que se manifesta, antes de mais nada, nesse seu empenho em difundir o saber, em partilhar com muitos o que ele sabe (e ele sabe muito!), seja em sua produção teórica, seja em sua atividade como professor e como jornalista. Mas que também se manifesta como atitude vital em face dos outros. Quanto a isso, gostaria de dar um exemplo pessoal: conheci Leandro do seguinte modo: tínhamos um amigo comum, eu havia lido os cinco ensaios dele a que me referi antes, publicados em Estudos Sociais, e, por meu turno, havia publicado na época, com 17-18 anos, numa revista da Faculdade de Direito da Bahia, uns textos meio bizarros, infanto-juvenis. Mas, intrépido e corajoso, mandei para Leandro, através deste amigo, os tais textos, solicitando sua opinião. Ele me escreveu uma carta extremamente generosa, muito cuidadosa, advertiu-me sobre o uso de autores heréticos, mas me estimulou muito e logo propôs que nos encontrássemos para discutir pessoalmente. Pouco depois vim ao Rio (acho que em março de 1962) e nos conhecemos pessoalmente. Sou quase oito anos mais moço que o Leandro, mas ele nunca me tratou, desde este primeiro encontro, quando eu tinha apenas 18 anos, como um jovenzinho baiano que ele devia "tutorar". Ao contrário, sempre me tratou como um igual, como um companheiro de atividade intelectual; abriu inúmeras portas no Rio para que eu publicasse na então "metrópole", inicialmente em Estudos Sociais e depois na Revista Civilização Brasileira, e indicou-me a Ênio Silveira para traduzir a obra de Gramsci, etc. Enfim, deu-me espaço para crescer de modo autônomo. 
6. 
Eu queria concluir dizendo da minha enorme satisfação em participar desta homenagem a Leandro, um produtor de cultura, um extraordinário ser humano, um mestre. Tentei ser objetivo, mas - como vocês puderam observar - isso nem sempre é fácil para mim. Mas, se o preço da objetividade for a frieza e a distância, renuncio facilmente a ela para falar de Leandro. Estou seguro de que ele é um dos poucos intelectuais brasileiros a quem cabe o qualificativo de mestre, de "filósofo democrático". Mas o que sobretudo me faz feliz é tê-lo como amigo fraterno, como companheiro de vida, de combates intelectuais e de batalhas políticas. 
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Carlos Nelson Coutinho é professor titular de Teoria Política da UFRJ. 
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Notas
(1) L. Konder, "Sartre, suas contradições formais e seus méritos", Estudos Sociais, nº 9, outubro de 1960, p. 89-94; Id., "Algumas considerações sobre a fisionomia ideológica de Fernando Pessoa", ibid., nº 11, dezembro de 1961, p. 283-294; Id., "O Contrato social e o liberalismo burguês", ibid., nº 14, setembro de 1962, p. 175-182; Id., "Marxismo e cristianismo: pressupostos de um diálogo", ibid., nº 16, março de 1963, p. 332-340; Id., "Alguns problemas do realismo socialista", ibid., nº 17, junho de 1963, p. 46-60. 
(2) J. G. Merquior, O marxismo ocidental, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1987. Lá podemos ler, na p. 3: "Para Leandro Konder, que não concordará com tudo...". 
(3) A. Gramsci, Cadernos do cárcere, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, vol. 1, 1999, p. 95-96. 
(4) Ibid., p. 400.




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Pessoas que nos Inspiram - Entrevista com o poeta Marcos Ana




Exemplo de Resiliência, luta e coragem...

Entrevista retirada do site rebelion



Entrevista com o poeta Marcos Ana 15/10/2012
"Idéias nunca são culpados, se eles são justos, são os instrumentos, os homens, aqueles que cometem erros"

Marcos Ana tem 92 anos, apesar de, como ele diz sempre, estes são anos de idade. A vida tem 69, que são deixados subtraindo o 23 ele passou na prisão. Ele entrou com 19 anos em maio de 1939 e saiu em 1962, com 42. Uma pessoa que tem seguido mais tempo nas prisões como um prisioneiro de consciência. vem de uma família muito humilde. Seus pais eram sem-terra, analfabetos e muito católica. Na verdade, ele mesmo era um adolescente, até que ela participou de um grupo de jovens católicos a uma reunião da Juventude Socialista em Alcalá para espalhar a sua propaganda. Ele estava a ouvir o que ele disse e percebeu que o homem estava falando sobre ele, sua casa e seus problemas. Só juntando e durante a guerra tornou-se o Partido Comunista. Em anos de prisão por escritos de Neruda Alberti e começa a escrever seus próprios poemas. Hoje, Marcos Ana, é um dos poetas mais renomados do país e do exterior. ainda continua a defender as mesmas idéias. Mas, como ele sempre diz: "Nós cometemos muitos erros, mas meu coração ainda está no mesmo lugar."



 http://vimeo.com/51085264

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Entrevista na Integra com Carlos Nelson Coutinho


Entrevista com Carlos Nelson Coutinho, publicada na edição 153 da revista Caros Amigos, que circulou a partir de dezembro de 2009 - confira as edições anteriores na loja Caros Amigos. O intelectual marxista morreu na madrugada desta quinta-feira (20), vítima de câncer.
Participaram Hamilton Octávio de Souza, Marcelo Salles, Renato Pompeu e Tatiana Merlino. Fotos: Coletivo Favela em Foco

“Sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia”

Carlos Nelson Coutinho, um dos intelectuais marxistas mais respeitados do Brasil, recebeu a Caros Amigos em seu apartamento no bairro do Cosme Velho, Rio de Janeiro, para uma conversa sobre os caminhos e descaminhos da esquerda brasileira, sua decepção com o governo Lula e as possibilidades de superação do capitalismo.
Estudioso de Antonio Gramsci, Coutinho defende a atualidade de Marx e reafirma o que disse em seu polêmico artigo “Democracia como valor universal”, publicado há 30 anos: “Sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia”
Hamilton Octávio de Souza - Queremos saber da sua história, onde nasceu, onde foi criado, como optou por esta carreira..
Caros Nelson Coutinho - Nasci na Bahia, em uma cidade do interior chamada Itabuna, mas fui para Salvador muito pequenininho, com uns 3 ou 4 anos. Me formei em Salvador, e as opções que eu fiz, fiz em Salvador. Eu nasci em 1943, glorioso ano da batalha de Stalingrado. Me formei em filosofia na Universidade Federal da Bahia, um péssimo curso, e com meus 18 ou 19 anos sabia mais do que a maioria dos professores. Meus pais eram baianos também. Meu pai era advogado e foi deputado estadual durante três legislaturas da UDN. Publicamente ele não era de esquerda, mas dentro de casa ele tinha uma posição mais aberta. Eu me tornei comunista lendo o Manifesto Comunista que o meu pai tinha na biblioteca. Ele era um homem culto, tinha livros de poesia. Minha irmã, que é mais velha, disse que eu precisava ler o Manifesto Comunista. Foi um deslumbramento. Eu devia ter uns 13 ou 14 anos. Aí fiz faculdade de Direito por dois ano porque era a faculdade onde se fazia política, e eu estava interessado em fazer política. Me dei conta que uma maneira boa de fazer política era me tornando intelectual. Aos 17 anos entrei no Partido Comunista Brasileiro, que naquela época tinha presença. O primeiro ano da faculdade foi até interessante porque tinha teoria geral do Estado, economia política, mas quando entrou o negócio de direito penal, direito civil, aí eu vi que não era a minha e fui fazer filosofia.
Renato Pompeu - Mas quais eram as suas referências intelectuais?

Em primeiro lugar, Marx, evidentemente, mas também foram muito fortes na minha formação intelectual o filósofo húngaro George Lukács e Gramsci. Eu tenho a vaidade de ter sido um dos primeiros a citar Gramsci no Brasil, porque aos 18 anos eu publiquei um artigo sobre ele na revista da faculdade de Direito. Aí eu vim para o Rio e fui trabalhar no Tribunal de Contas. Me apresentei ao João Vieira Filho para trabalhar e ele me falou: “meu filho, vá pra casa e o que você precisar de mim me telefone”. Eu fiquei dois ou três anos aqui sem trabalhar, mas a situação ficou inviável. Pedi demissão e fui, durante um bom tempo, tradutor. Eu ganhava a vida como tradutor, traduzi cerca de 80 ou 90 livros. Em 76, eu fui para a Europa. Passei 3 anos fora, não fui preso, mas senti que ia ser, foi pouco depois da morte do Vlado. Então morei na Europa por três anos, onde acho que aprendi muita política. Morei na Itália na época do florescimento do eurocomunismo, que me marcou muito. O primeiro texto que publiquei é exatamente este artigo da “Democracia como valor universal” que causou, sem modéstia, um certo auê na esquerda brasileira na época. Até hoje há citações de que é um texto reformista, revisionista. Enfim, voltei do exílio e entrei na universidade, na UFRJ, onde eu estou há quase 28 anos. Passei por três partidos políticos na vida. Entrei no PCB, como disse antes, aos 17 anos, onde fiquei até 1982, quando me dei conta que era uma forma política que tinha se esgotado. Nesse momento, surge evidentemente uma coisa que o PC não esperava e não queria, que é um partido realmente operário, no sentido de ter uma base operária. O mal-estar do PCB contra o PT no primeiro momento foi enorme. Eu saí do PCB, mas não entrei logo no PT. Só entrei no PT no final da década de 80, entrei junto com o [Milton] Temer e o Leandro Konder. Fizemos uma longa discussão para ver se entrávamos ou não, e ficamos no PT até o governo Lula, quando nos demos conta que o PT não era mais o PT. Saí e fui um dos fundadores do PSOL, que ainda é um partido em formação. Ele surge num momento bem diferente do momento de formação do PT, de ascensão do movimento social articulado com a ascensão do movimento operário. E o PSOL surge exatamente em um momento de refluxo. Nessa medida, ele é ainda um partido pequeno, cheio de correntes. Eu sou independente, não tenho corrente. Podemos dizer o seguinte: eu tinha um casamento monogâmico com o PCB, com o PT já me permitia traições e no PSOL é uma amizade colorida.
Tatiana Merlino - Em uma entrevista recente o senhor falou sobre o avanço e o triunfo da pequena política sobre a grande política dentro do governo Lula. Você pode falar um pouco sobre isso?

Gramsci faz uma distinção entre o que chama de grande política e pequena política. A grande política toma em questão as estruturas sociais, ou para modificá-las, ou para conservá-las. A pequena política de Gramsci é a política da intriga, do corredor, a intriga parlamentar, não coloca em discussão as grandes questões. Durante algum tempo, o Brasil passou por uma fase de grande política. Se a gente lembrar, por exemplo, a campanha presidencial de 89, sobretudo o segundo turno, tinha duas alternativas claras de sociedade. Não sei se, caso o PT ganhasse, ia cumpri-la, mas, do ponto de vista do discurso, tinha uma alternativa democrático-popular e uma alternativa claramente neoliberal. Até certo momento, no Brasil, nós tivemos uma disputa que Gramsci chamaria de grande política. A partir, porém, sobretudo, da vitória eleitoral de Lula, eu acho que a redução da arena política acaba na pequena política, ou seja, que no fundo não põe em discussão nada estrutural. Eu diria que é a política tipo americana. Obviamente o Obama não é o Bush, mas ninguém tem ilusão de que o Obama vai mudar as estruturas capitalistas dos Estados Unidos, ou propor uma alternativa global de sociedade. Então, o que está acontecendo no Brasil é um pouco isso, dando Dilma ou dando Serra não vai mudar muita coisa não. Até às vezes desconfio que o Serra pode fazer uma política menos conservadora, mas depois vão me acusar de ter aderido a ele. Eu até faço uma brincadeira, dizendo que a política brasileira “americanalhou”, virou essa coisa... Então, neste sentido eu entrei no PSOL até com essa ideia de criar uma proposta realmente alternativa. Infelizmente o PSOL não tem força suficiente para fazer essa proposta chegar ao grande público, mas é uma tentativa modesta de ir contra a pequena política.
Renato Pompeu - Você não acha que esse americanalhamento aconteceu na própria pátria do Gramsci?

Ah, sem dúvida. A predominância da pequena política é uma tendência mundial. Me lembro que logo depois da abertura eu escrevi uns dois ou três artigos em que dizia que o Brasil se tornou uma sociedade complexa. O Gramsci a chamaria de ocidental, que é uma sociedade civil desenvolvida, forte e tal. Mas há dois modelos de sociedade ocidental - um modelo que eu chamava de americano, que é este onde há sindicalismo, mas o sindicalismo não se põe nas estruturas, há um bipartidarismo, mas os partidos são muito parecidos, e o que eu chamava de modelo europeu, onde há disputa de hegemonia. Ou seja, se alguém votava no partido comunista na Itália, sabia que estava votando em uma proposta de outra ordem social. Se alguém votava no Labour Party na Inglaterra durante um bom tempo, pelo menos o programa deles era socialista, de socialização dos meios de produção. E quem votava no partido conservador queria conservar a ordem. O Brasil tinha como alternativa escolher um ou outro modelo. Por exemplo, havia partidos que são do tipo americano, como o PMDB, mas havia partidos que são do tipo europeu, como o PT. Havia um sindicalismo de resultado e um sindicalismo combativo (CUT, por exemplo), mas tudo isso era naquela época. Depois a hegemonia neoliberal, em grande parte, americanalhou a política mundial. A Europa hoje é exatamente isso, são partidos que diferem muito pouco entre si. Há um “americanalhamento”. É um fenômeno universal e é uma prova da hegemonia forte do neoliberalismo.
Tatiana Merlino - Então o avanço da pequena sobre a grande política está sendo mundial?

É um fenômeno mundial, não é um fenômeno brasileiro. Mas veja só, começam a surgir na América Latina formas que tentam romper com este modelo da pequena política. Estou falando claramente de Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, ainda que eu não seja um chavista, até porque eu acho que o modelo que o Chávez tenta aplicar na Venezuela não é válido para o Brasil, que é uma sociedade mais complexa, mais articulada. Mas certamente é uma proposta que rompe com a pequena política. Quando o Chávez fala em socialismo, ele recoloca na ordem do dia, na agenda política, uma questão de estrutura.
Tatiana Merlino - Então é um socialismo novo, do século 21. Que socialismo é esse?

Eu não sei, aí tem que perguntar para o Chávez. Olha, eu não gosto dessa expressão “socialismo do século 21”, eu diria “socialismo no século 21”.
Renato Pompeu - E como seria o socialismo no século 21?

Socialismo não é um ideal ético ao qual tendemos para melhorar a ordem vigente. O socialismo é uma proposta de um novo modo de produção, de uma nova forma de sociabilidade, e nesse sentido eu acho que o socialismo é, mesmo no século 21, uma proposta de superar o capitalismo. Novidades surgiram, por exemplo: quem leu o Manifesto Comunista, como eu, vê que Marx e Engels acertaram em cheio na caracterização do capitalismo. A ideia da globalização capitalista está lá no Manifesto Comunista, o capitalismo cria um mercado mundial, expande e vive através de crises. Essa ideia de que a crise é constitutiva do capitalismo está lá em Marx. Mas há um ponto que nós precisamos rever em Marx, e rever certas afirmações, que é o seguinte: Quem é o sujeito revolucionário? Nós imaginamos construir uma nova ordem social. Naturalmente, para ser construída, tem que ter um sujeito. Para Marx, era a classe operária industrial fabril, e ele supunha, inclusive, que ela se tornaria maioria da sociedade. Acho que isso não aconteceu. O assalariamento se generalizou, hoje praticamente todas as profissões são submetidas à lei do assalariamento, mas não se configurou a criação de uma classe operária majoritária. Pelo contrário, a classe operária tem até diminuído. Então, eu diria que este é um grande desafio dos socialistas hoje. Hoje em dia tem aquele sujeito que trabalha no seu gabinete em casa gerando mais-valia para alguma empresa, tem o operário que continua na linha de montagem.. Será que este cara que trabalha no computador em casa se sente solidário com o operário que trabalha na linha de montagem? Você vê que é um grande desafio. Como congregar todos estes segmentos do mundo do trabalho permitindo que eles construam uma consciência mais ou menos unificada de classe e, portanto, se ponham como uma alternativa real à ordem do capital?
Renato Pompeu - Aí tem o problema dos excluídos...

Eu tenho sempre dito que as condições objetivas do socialismo nunca estiveram tão presentes. Prestem atenção, o Marx, no livro 3 do “Capital”, diz o seguinte: O comunismo implica na ampliação do reino da liberdade e o reino da liberdade é aquele que se situa para além da esfera do trabalho, é o reino do trabalho necessário, é o reino onde os homens explicitarão suas potencialidades, é o reino da práxis criadora. Até meio romanticamente ele chega a dizer no livro “A Ideologia Alemã” que o socialismo é o lugar onde o homem de manhã caça, de tarde pesca e de noite faz crítica literária, está liberto da escravidão da divisão do trabalho. E ele diz que isso só pode ser obtido com a redução da jornada de trabalho. O capitalismo desenvolveu suas forças produtivas a tal ponto que isso se tornou uma possibilidade, a redução da jornada de trabalho, o que eliminaria o problema do desemprego. O cara trabalharia 4 horas por dia, teria emprego para todos os outros. E por que isso não acontece? Porque as relações sociais de produção capitalista não estão interessadas nisso, não estão interessadas em manter o trabalhador com o mesmo salário e uma jornada de trabalho muito menor. Então, eu acho que as condições para que a jornada de trabalho se reduza e, portanto, se crie espaços de liberdade para a ação, para a práxis criadora dos homens, são um fenômeno objetivo real hoje no capitalismo. Mas as condições subjetivas são muito desfavoráveis. A morfologia do mundo do trabalho se modificou muito. Muita gente vive do trabalho com condições muito diferenciadas, o que dificulta a percepção de que eles são membros de uma mesma classe social. Então, esse é um desafio que o socialismo no século 21 deve enfrentar. Um desafio também fundamental é repensar a questão da democracia no socialismo. Eu diria que, em grande parte, o mal chamado “socialismo real” fracassou porque não deu uma resposta adequada à questão da democracia. Eu acho que socialismo não é só socialização dos meios de produção - nos países do socialismo real, na verdade, foi estatização - mas é também socialização do poder político. E nós sabemos que o que aconteceu ali foi uma monopolização do poder político, uma burocratização partidária que levou a um ressecamento da democracia. A meu ver, aquilo foi uma transição bloqueada. Eu acho que os países socialistas não realizaram o comunismo, não realizaram sequer o socialismo e temos que repensar também a relação entre socialismo e democracia. Meu texto, “Democracia como valor universal”, não é um abandono do socialismo. Era apenas uma maneira de repensar o vínculo entre socialismo e democracia. Era um artigo ao mesmo tempo contra a ditadura que ainda existia e contra uma visão “marxista-leninista”, o pseudônimo do stalinismo, que o partido ainda tinha da democracia. Acho que este foi o limite central da renovação do partido.
Marcelo Salles - E nesse “Democracia como valor universal”, você disse recentemente que defende uma coisa que não foi muito bem entendida: socialismo como condição da plena realização da democracia...

Uma alteração que eu faria no velho artigo era colocar não democracia como valor universal, mas democratização como valor universal. Para mim a democracia é um processo, ela não se identifica com as formas institucionais que ela assume em determinados contextos históricos. A democratização é o processo de crescente socialização da política com maior participação na política, e, sobretudo, a socialização do poder político. Então, eu acredito que a plena socialização do poder político, ou seja, da democracia, só pode ocorrer no socialismo, porque numa sociedade capitalista sempre há déficit de cidadania. Em uma sociedade de classes, por mais que sejam universalizados os direitos, o exercício deles é limitado pela condição classista das pessoas. Neste sentido, para a plena realização da democracia, o autogoverno da sociedade só pode ser realizado no socialismo. Então, eu diria que sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia. Acho que as duas coisas devem ser sublinhadas com igual ênfase.
Hamilton Octávio de Souza - Nós saímos de um período de 21 anos de ditadura militar, essa chamada democracia que nós vivemos, qual é o limite? O que impende o avanço mesmo que não se construa uma nova sociedade?

Eu acho que temos uma tendência, que me parece equivocada, de tratar os 21 anos da ditadura como se não houvesse diferenças de etapas. Eu acho, e quem viveu lembra, que, de 64 ao AI-5, era ditadura, era indiscutível, mas ainda havia uma série de possibilidades de luta. Do AI-5 até o final do governo Geisel, foi um período abertamente ditatorial. No governo Figueiredo, há um processo de abertura, um processo de democratização que vai muito além do projeto de abertura da ditadura. Tem um momento que os intelectuais mais orgânicos da ditadura, como o Golbery, por exemplo, percebem que “ou abre ou pipoca”. O projeto de abertura foi então atravessado pelo que eu chamo de processo de abertura da sociedade real. Eu não concordo com o Florestan Fernandes quando ele chama a transição de conservadora. Eu acho que ocorreu ali a interferência de dois processos: um pelo alto, porque é tradicional na história brasileira as transformações serem feitas pelo alto, o que resultou na eleição de Tancredo. Mas também houve a pressão de baixo. A luta pelas “Diretas” foi uma coisa fundamental, também condicionou o que veio depois. Esta contradição se expressa muito claramente na Constituição de 88, que tem partes extremamente avançadas. Todo o capítulo social é extremamente avançado, embora a ordem econômica tenha sido mais ou menos mantida. Mas a Constituição é tanto uma contradição que o que nós vimos foi a ação dos políticos neoliberais, dos governos neoliberais de tentar mudá-la, de extirpar dela aquelas conquistas que nós podemos chamar de democráticas. Eu acho que o Brasil hoje é uma sociedade liberal-democrática no sentido de que tem instituições, voto, partidos e tal. Mas, evidentemente, é uma democracia limitada, sobretudo no sentido substantivo. A desigualdade permanece.
Hamilton Octávio de Souza - Mas hoje o que está mais estrangulado para o avanço na democracia ainda no marco de uma sociedade capitalista?

Eu acho que a ditadura reprimiu a esquerda, nos torturou, assassinou muitos de nós, nos obrigou ao exílio, mas não nos desmoralizou. Eu acho que a chegada do Lula ao governo foi muito nociva para a esquerda. Ninguém esperava que o governo Lula fosse empreender por decreto o socialismo, mas pelo menos um reformismo forte, né? Eu acho que a decepção que isso provocou, mais toda a história do mensalão e tal, é um dos fatores que limitam o processo de aprofundamento da democracia no Brasil. Entre outras coisas porque o governo Lula, que é um governo de centro, cooptou os movimentos sociais. Temos a honrosa exceção do MST que não é assim tão exceção porque eles são obrigados... tem cesta básica nos assentamentos e tal, eles são obrigados também a fazer algumas concessões, mas a CUT... Qual a diferença da CUT e da Força Sindical? Eu acho que essa transformação da política brasileira em pequena política, que se materializou com o governo Lula, que não é diferente do governo Fernando Henrique, foi o fator que bloqueou o avanço democrático. Até 2002, havia um acúmulo de forças da sociedade brasileira que apontava para o aprofundamento da democratização, e o sujeito deste processo era o PT, o movimento social. Na medida em que isso se frustrou, eu acho que houve um bloqueio no avanço democrático na época. O neoliberalismo enraizou-se muito mais fortemente na Argentina do que no Brasil porque aqui havia uma resistência do PT e dos movimentos sociais. Com a chegada ao governo, essa resistência desapareceu. Então, de certo modo, é mais fácil a classe dominante hoje fazer passar sua política em um governo petista do que em um governo onde o PT era oposição.
Tatiana Merlino - Então a conjuntura seria um pouco menos adversa se estivesse o José Serra no poder e o PT como oposição?

Eu não gostaria de dizer isso, mas eu acho que sim. Mas isso coloca uma questão: e se demorasse mais quatro anos para o PT chegar ao governo, ia modificar estruturalmente o que aconteceu com o PT? Até um certo momento, é clara no partido uma concepção socialista da política. A partir de um certo momento, porém, antes de Lula ir ao governo, o PT abandonou posturas mais combativas. Ele fez isso para chegar ao governo. Mas se demorasse mais quatro anos, ou oito anos, não aconteceria o mesmo? Não sei. Não quero ser pessimista também, não era fatal o que aconteceu com o PT.
Renato Pompeu - Você é professor de qual disciplina?

De teoria política.
Renato Pompeu - Você é um cientista político ou um filósofo da política?

Não, não. Filósofo tudo bem, mas cientista político não. Porque ciência política para mim é aquela coisa que os americanos fazem, ou seja, pesquisa de opinião, sistema partidário, a ciência política é a teoria da pequena política. Eu sou professor da escola de Serviço Social.
Hamilton Octávio de Souza - Que projeto que você identifica hoje no panorama brasileiro: a burguesia nacional tem um projeto? As correntes de esquerda têm um projeto? Existe um projeto de nação hoje?


Isso é um conceito interessante, porque este é um conceito criado em grande parte pela Internacional Comunista e pelo PCB, de que haveria uma burguesia nacional oposta ao imperialismo. Eu me lembro quando eu entrei no partido, eu era meio esquerdista e vivia perguntando ao secretário-geral do partido na Bahia: Quem são os membros da burguesia nacional? E um dia ele me respondeu: “José Ermírio de Moraes e Fernando Gasparian”. Olha, duas pessoas não fazem uma classe. Do ponto de vista nosso, da esquerda, uma das razões da crise do socialismo, das dificuldades que vive o socialismo hoje, é a falta de um projeto. A social-democracia já abandonou o socialismo há muito tempo, e nos partidos de esquerda antagonistas ao capitalismo há uma dificuldade de formulação de um projeto exequível de socialismo. Na maioria dos casos, estes partidos defendem a permanência do Estado do bem-estar social que está sendo desconstruído pelo liberalismo. É uma estratégia defensivista. Essa é outra condição subjetiva que falta, a formulação clara de um projeto socialista. Do ponto de vista das classes dominantes, eu acho que eles têm um projeto que estava claro até o momento da crise do neoliberalismo. Foi o que marcou o governo Collor e o governo Fernando Henrique e o que está marcando também o governo Lula, com variações. Evidentemente, há diferenças, embora a meu ver, não estruturais. Esse é o projeto da burguesia. Com a crise, eu acho que algumas coisas foram alteradas, então, uma certa dose de keynesianismo se tornou inevitável, mas sempre em favor do capital e nunca em favor da classe trabalhadora. Tenho um amigo que diz. “Estado mínimo para os trabalhadores e máximo para o capital”. No fundo, é essa a proposta do neoliberalismo: desconstrução de direitos, concessão total de todas as relações sociais ao mercado, subordinação do público ao privado, ao capital internacional. Não há burguesia anti-imperialista no Brasil, definitivamente. Pode haver um burguês que briga com o seu concorrente e o seu concorrente é um estrangeiro, mas nem assim ele vai ser anti-imperialista.

Hamilton Octávio de Souza - Você vê alguma alteração a curto prazo?


O que poderia mudar isso seria um fortalecimento dos movimentos sociais, da sociedade civil organizada sob a hegemonia da esquerda. E pressionar para que reformas fossem feitas e se retomasse uma política econômica mais voltada para as classes populares. Tem um mote de Gramsci que eu acho muito válido, que é: “pessimismo da inteligência e otimismo da vontade”. A esquerda não pode ser otimista numa análise do que está acontecendo no mundo porque a esquerda tem perdido sucessivas batalhas. Então ser otimista frente a um quadro desses é difícil. Quanto mais nós somos pessimistas, mais otimismo da vontade temos de ter, mais a gente deve ter clareza que só atuando, só dedicando todo o nosso empenho à mudança disso é que essa coisa pode ser mudada. Então, a esperança de mudança seguramente há, há potencialidades escondidas na atual sociedade que permitem ver e pensar a superação do capitalismo. O capital não pode perdurar. A alternativa ao socialismo, como dizia a Rosa Luxemburgo, é a barbárie. Se o capitalismo continuar, teremos cada vez mais uma barbarização da sociedade que nós já estamos assistindo.

Hamilton Octávio de Souza - Por conta do neoliberalismo, tivemos um aumento do desemprego estrutural, a informalidade do trabalho, o desrespeito à legislação trabalhista, estamos numa condição de perdas de conquistas, direitos. Como é que se explica a fraqueza do movimento social diante disso?


A certeza que nós temos de que o capitalismo não vai resolver os problemas nem do mundo nem do Brasil nos faz acreditar que, primeiro, a história não acabou, e, portanto, ela está se movendo no sentido de contestar a independência barbarizante do capital. Onde eu vejo focos, no Brasil de hoje, é no MST. Uma coisa que funciona muito bem no MST é a preocupação deles com a formação dos quadros. Eu fui de um partido, o PCB, que tinha curso, mas as pessoas iam para Moscou, faziam a escola do partido. O PT nunca se preocupou com formação de quadros, não tinham escolas, e o MST tem. Eu acho que o MST tem uma ambiguidade de fundo que é complicada. Ele é um movimento social e, como todo movimento social, ele é particularista, defende o interesse dos trabalhadores que querem terra. Essa não pode ser uma demanda generalizada da sociedade. Eu não quero um pequeno pedaço de terra, nem você. O partido político é quem universaliza as demandas, formula uma proposta de sociedade que engloba as demandas dos camponeses, proletários, das mulheres... O MST tem uma ambiguidade porque ele é um movimento que frequentemente atua como partido. Eu acho que isso às vezes limita a ação do MST.

Marcelo Salles - O termo “Ditadura do Proletariado” que vez ou outra algum liberal usa...
Na época de Marx, ditadura não tinha o sentido de despotismo que passou a ter depois. Ditadura é um instituto do direito romano clássico que estabelecia que, quando havia uma crise social, o Senado nomeava um ditador, que era um sujeito que tinha poderes ilimitados durante um curto período de tempo. Resolvida a crise social, voltava a forma não ditatorial de governo. Então, quando o Marx fala isso, ele insiste muito que é um período transitório: a ditadura vai levar ao comunismo, que para ele é uma sociedade sem Estado. Ele se refere a um regime que tem parlamento, que o parlamento é periodicamente reeleito, e que há a revogabilidade de mandato. Então, essa expressão foi muito utilizada impropriamente tanto por marxistas quanto por antimarxistas. Apesar de que em Lênin eu acho que a ditadura do proletariado assume alguns traços meio preocupantes. Em uma polêmica com o Kautsky, ele diz: ditadura é o regime acima de qualquer lei. Lênin não era Stálin, mas uma afirmação desta abriu caminho para que Stálin exercesse o poder autocrático, fora de qualquer regra do jogo, acima da lei. Tinha lei, tinha uma Constituição que era extremamente democrática, só que não valia nada.
Marcelo Salles - Estão sempre dizendo que não teria liberdade de expressão no socialismo, porque o Estado seria muito forte, e teria o partido único...


Em primeiro lugar, não é necessário que no socialismo haja partido único, e não é desejável, até porque, poucas pessoas sabem, mas no início da revolução bolchevique o primeiro governo era bipartidário. Era o partido bolchevique e o partido social-revolucionário de esquerda. Depois, eles brigaram e ficou um partido só. Mas não é necessário que haja monopartidarismo. Segundo, Rosa Luxemburgo, marxista, comunista, que apoiou a revolução bolchevique, dizia o seguinte: liberdade de pensamento é a liberdade de quem pensa diferente de nós. Então, não há na tradição marxista a ideia de que não haja liberdade de expressão, mas uma coisa é liberdade de expressão e outra coisa é o monopólio da expressão. Liberdade de expressão sim, contanto que não seja uma falsa liberdade de expressão. Eu acho que o socialismo é condição de uma assertiva liberdade de expressão.